Um resistente fiel e um conto de Natal: Na Mesa com Frei Betto

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“Comer é comunhão com a natureza, que nos fornece os alimentos; com o próximo, que nos ‘alimenta’ com a boa conversa na mesa;  e com Deus, que se fez Pão entre nós: ‘Eu sou o pão da vida’, disse Jesus”, nessas belas palavras, Frei Betto, nos emociona e nos abençoa, já no início da entrevista.

.Escritor, religioso, militante político, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, cresceu cercado por letras e aromas da culinária. Filho do jornalista Antônio Carlos Vieira Christo e da escritora e culinarista Maria Stella Libânio Christo, (autora do imperdível  “Fogão de Lenha – 300 anos de cozinha mineira”, da Editora Garamond), este belo-horizontino, sempre foi fiel aos seus ideais. Adepto da Teologia da Libertação, é militante de movimentos pastorais e sociais.

Durante o período da Ditadura Militar foi preso por duas vezes: em 1964, por 15 dias; e entre 1969-1973.  Os dias de liberdade privada estão relatados nos livros  “Cartas da Prisão” (Editora Agir);  “Diário de Fernando – nos Cárceres da Ditadura Militar Brasileira” (Editora Rocco);  e Batismo de Sangue (Editora Rocco), este último inspirou o filme homônimo do diretor mineiro Helvécio Ratton, de 2006, que tem no elenco  Caio Blat, Daniel de Oliveira, Cássio Gabus Mendes e  Marcélia Cartaxo.

O livro Batismo de Sangue foi premiado com o Jabuti de 1983, e  descreve os bastidores do regime militar, a resistência dos frades dominicanos à ditadura, a morte de Carlos Marighella e as torturas sofridas por Frei Tito.

Em sua imensa generosidade, Frei Betto brinda o site  blimabracher.com  e o Portal Uai  http://www.portaluai.com.br,  com uma crônica, relatando uma experiência natalina, com viés culinário. Leiam aqui, reminiscências de uma infância repleta de amor e bom humor.

“O ano, se bem me lembro, era 1955.  Nas férias de verão, Nando, treze anos, e eu, onze, fomos enviados por meus pais à casa de Isá Guinle Paula Machado Libânio e Nelson Libãnio, no Rio. Nelson era primo em primeiro grau de minha mãe. Assemelhava-se a Omar Sharif pelo porte alto, os cabelos pretos cheios, o rosto encorpado. Trazia um bigode bem cuidado e falava manso, com entonações abertas.

Filho de Samuel Libânio, que ensinou medicina a Guimarães Rosa e Juscelino Kubitschek, em Minas, Nelson seguiu a carreira do pai e jamais abandonou o consultório. Terminado o curso, a formatura estendeu-se em viagem à Europa. No correio de Paris, esbarrou em Isá, moça franzina, cuja aparência não denunciava sua origem aristocrática. Da língua comum nasceu o encanto e o amor os fez marido e mulher.

Isá, entre irmãos, era a única filha de Celina Guinle e Lineu Paula Machado. Sua fé cristã, apurada pela ótica francesa, livrou-a dos salões e das futilidades. Nutria-se de Maritain, De Lubac, Mounier, a ponto de convencer a família a investir numa editora que divulgasse no Brasil o que havia de mais avançado na teologia europeia: a Agir.

Quem visse Isá e Nelson juntos juraria que ela era o nobre e ele, a plebeu. Garboso, gestos comedidos, ele fumava com o charme de Humphrey Bogart em Casablanca. Trajava ternos brancos de linho ou casimira e acalentava a mineirice que o distanciava de ambições e enlevos sociais.

Os óculos de Isá adelgavam ainda mais seu rosto fino e acentuavam sua vocação intelectual. Trazia o sorriso sóbrio, porém radiante, de uma luz que refletia sua consistência de espírito. Seus valores morais sobrepujavam, e muito, os pecuniários. Era módico o conforto da casa em que habitavam em Botafogo. Mormente se comparada aos requintes do palacete neoclássico da rua São Clemente, dotado de elevador e capela. Ali crescera Isá. Ainda hoje a mansão resiste à especulação imobiliária.

O Vera Cruz, trem que ligava Belo Horizonte ao Rio, todo fim de ano trazia Nando e eu à acolhida do casal, na rua Guilhermina Guinle. A casa em que vivia, em estilo moderno, tinha dois pavimentos. No térreo, áreas sociais e, acima, suítes e quartos. Entre a sala de jantar e o jardim, retalhado pela piscina, um alpendre forrado de plantas. Era o melhor lugar da casa. Ali, refestelado em cadeiras de vime, dei minhas primeiras tragadas. Não resisti à tentação das cigarreiras de prata abarrotadas de cigarros Kent.

Nando e eu, na noite de Natal, íamos à Missa do Galo na matriz de São João Batista, na Voluntários da Pátria. Não era como hoje, que mais parece missa da galinha ou do pinto, celebrada muito antes da meia-noite. Culpa da falta de fé, dos bandidos ou da nossa ansiedade de abrir os presentes e devorar a ceia? O espírito litúrgico, mais enraizado, dava importância às festas do calendário cristão.

Missa do Galo sem comunhão era aniversário sem bolo. Confessávamos ao padre os escrúpulos, o despertar do sexo, pequenas mentiras, birras que ficavam na conta de brigas. Três pai-nossos, três ave-marias e pronto!  Estávamos reconciliados com Deus, malgrado o débito com o purgatório.

Mandava a Igreja que se fizesse jejum pelo menos três horas antes de se aproximar da mesa eucarística. Exceto água. Jejum na adolescência era um suplício, sobretudo naquela casa equipada com três geladeiras repletas de fiambres, queijos, compotas, sorvetes, doces e geleias. Quem sabe o sacrifício não valesse mil anos de indulgência!

Para bons quitutes, Nando tem faro pantagruélico. Enamorou-se de uma torta coberta de chocolate que desfrutava lugar de destaque na geladeira da copa. Fomos à missa com a torta a aguçar-nos imaginação e apetite. O rito era em latim e o padre celebrava de costas à assembleia; fora a beleza dos cânticos, nada distraia-nos da expectativa do maná que nos aguardava em casa. Se a comunhão trazia o céu à Terra, a torta com certeza nos remeteria da Terra ao céu. Pronunciado o Ite missa est, saímos céleres pela noite quente de Botafogo, onde o que havia de mais alto, abaixo das estrelas, eram as copas frondosas das árvores.

Passava de uma da madrugada quando fomos abrir os  presentes. Isá, já recolhida, gritou do quarto: “Não deitem sem lanchar”. Nando retirou da geladeira nossa maçã do Paraíso e, solene, pousou-a sobre a mesa da copa. O Menino Jesus já havia nascido, o galo cantado, os sinos repicados e as ceias devoradas. Restava apenas saciar o nosso abissal apetite juvenil.

Cortou-se a primeira fatia: um creme. Várias camadas multicores, um bolo assorvetado entremeado de frutas cristalizadas e encharcado em licores. Veio a segunda: agora sim, o paladar, apaziguado, apreciava melhor. Não era uma simples torta. Era o manjar que os reis magos ofertaram no presépio. A cobertura crocante de chocolate derretia na boca e o olfato impregnava-se desse perfume de baunilha que nos remete à calda espessa e quente. Chocolate cheira a aconchego; agasalha-nos por dentro. A massa leve evolava-se na língua que, atenta, atinava com o licor, as nozes, os pistaches, as tâmaras e as cerejas. Não falávamos. No silêncio da madrugada, a curva do doce  encolhia-se, fatia a fatia. Há que ser educado! Éramos hóspedes e convinha deixar um pedaço, o bastante para o casal anfitrião provar à sobremesa. Fomos dormir o sono dos eleitos.

Acordou-nos um grito. O Sol ia alto, mas tínhamos ainda os olhos pesados. Clamor de perplexidade e desolação. Era Isá. Foi a única vez que a ouvimos estarrecida. Não vimos; enfiamos a cabeça nos lençóis.

A torta era a sobremesa que o casal levaria ao almoço de família no palacete da São Clemente. Viera de Paris, encomendada do Maxim’s, aos cuidados da Air France. O glutão do Papai Noel passara e não resistira…”

Depois deste belo relato de suas reminiscências infantis, continuamos com nossa entrevista, com o cativante Frei Betto:

BB -O senhor é filho de uma grande pesquisadora da culinária, Maria Stella Libânio Christo (que papai conheceu na Fazenda do Manso, do saudoso Tarquínio,, nos anos 70).  Temos alguns dos livros dela e me lembro de tardes fazendo quitutes, ainda criança, com os ensinamentos dela para os pequenos. Quais são as suas primeiras lembranças de infância, relacionadas à culinária?

FB –  Minha mãe, Maria Stella Libânio Christo, autora do clássico “Fogão de Lenha – 300 anos de cozinha mineira”, fazia salgados e doces muito gostosos. Minha lembrança mais remota é ela e minhas tias entre a cozinha e a copa de nossa casa, em BH, preparando quitutes e quitandas para as festas de aniversário: brigadeiros, casadinhos, bala puxa-puxa, doce de coco, fatias de amendoim, mini-empadinhas, mini-sanduíches etc

BB – Quais os cheiros que mais te remetem à infância?

FB –  O perfume dos bifes feitos na chapa do fogão e da fritura de pasteis.

BB – O que a gastronomia significa para o senhor?

FB-  Como bom filho da mãe, adoro cozinhar e sou autor do livro “Comer como um frade – divinas receitas para quem sabe por que temos um céu na boca” (José Olympio). E, em parceria com minha mãe, escrevi dois livros de culinária para crianças: “Fogãozinho” e “Saborosa viagem pelo Brasil”, ambos editados pela Mercuryo Jovem.

BB – Sua mãe tinha receitas para cada ocasião. Somente pelo cheiro você conseguia detectar o evento que se aproximava?

FB –  Sim, inclusive ela escreveu o livro “Minas de Forno e Fogão” com receitas para as datas emblemáticas do ano – Natal, aniversário, casamento etc

BB – Qual o prato que ela fazia de que mais gostava?

FB –  No Natal ela fazia o Miss Guynt, um bolo de procedência inglesa, impregnado de conhaque. Na falta de cereja, entremeado de catorze camadas de massa fina e goiabada. É a “madeleine” da família, que minha irmã Cecilia continua a fazer no Natal. Porem, ao longo do ano, o que eu mais gostava era o lagarto com farofa.

BB – O senhor sabe cozinhar? Ela te ensinou truques?

FB –  Vários truques, como jamais lavar as mãos com sabão após cortar ou picar o alho. Basta deixar a água escorrer e logo a pele fica sem nenhum cheiro de alho. Se lavar com sabão, o cheiro dá noticias…

BB – Um restaurante inesquecível.

FB – A Toca, em São Paulo, onde moro. Ali minha mãe fazia, todo ano, um festival de comida mineira. Um sucesso! O restaurante já não existe mais.

BB – Qual o seu prato favorito?

FB –  Bife mal passado, farofa e salada de alface e rúcula com tomate. De sobremesa, goiabada com queijo.

BB – Bebe bebidas alcoólicas?

FB –  De preferência, vinho tinto.
BB – Cite um ou mais restaurantes imperdíveis em BH.

FB –  Há tempos não me fixo em um, pois tenho ido pouco a BH. Mas trago na memória do paladar a Cantina do Ãngelo;  a Gruta Metrópole;  o restaurante do Minas Tênis Clube na rua na Bahia;  e o restaurante do Hotel Gontijo, no Centro.
BB – Conhece algum em Ouro Preto?

FB –  Comi muito bem na Casa do Ouvidor várias vezes.
BB – E em Tiradentes?

FB –  Vários, mas me lembro agora do Tragaluz e do Bar do Celso.
BB – Um chef

FB – Meu irmão, Luiz Fernando Libânio Christo.

BB – Um sabor de Minas

FB –  Canjiquinha com costelinha de porco e couve rasgada

BB – Com quem gostaria de dividir a mesa?

FB – Com quem tempera a comida de alegria e “causos” divertidos.

BB – De quem dispensaria a companhia?

FB – Aqueles que sentam à mesa com mau humor e trazem a língua ácida em relação à vida alheia.

BB – Um sabor indigesto

FB – Pimenta crua.

A saudosa Maria Stella Libânio Christo, uma das pioneiras nas pesquisas culinárias e tradições da cozinha mineira. É autora de vários livros sobre o assunto
Capa
O livro “Fogão de Lenha – 300 anos de cozinha mineira”, da Editora Garamond, um clássico escrito pela culinarista Maria Stella Libânio Christo, mãe de Frei Betto

Fotos: Reprodução

Texto:

#blimabracher @blimabracher
#blimabracher @blimabracher

 

4 thoughts on “Um resistente fiel e um conto de Natal: Na Mesa com Frei Betto

  1. O texto de Frei Betto é maravilhoso.
    É a primeira vez que entro em contato com você Blima Bracher. Achei ótimo a entrevista que você fez com Frei Betto.
    De hoje em diante vou acompanhar com mais frequência teus escritos.
    Achei seu nome muito belo: BLIMA.
    Desejo a você e aos seus um 2017 de muita paz e amor.

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