Giz e quadro negro em extinção? Pesquisador da UFMG propõe ensino por meio do Whatsapp

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O modelo de ensino baseado somente na utilização do giz e do quadro negro na sala de aula pelo professor pode estar com os dias contados. É o que revela a dissertação “A LÍNGUA PORTUGUESA QUE SE ENSINA POR MEIO DO WHATSAPP: UM ESTUDO SOBRE AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NA REDE PÚBLICA DE EDUCAÇÃO DE BELO HORIZONTE”.  A ideia de realizar o trabalho surgiu por meio das aulas de Língua Portuguesa e Redação, ministradas por Christian Catão na rede particular de educação de Belo Horizonte. Nos mais de 10 anos dedicados ao ensino da língua materna no ensino médio da rede particular de Belo Horizonte, Catão percebia que, muitas vezes, havia pouca correspondência entre a teoria e a prática trabalhada durante as aulas de língua portuguesa. As aulas de gramática, principalmente, se tornavam aborrecidas e cansativas, pois cotidianamente são enfocados aspectos do conteúdo pouco relacionados à vivência dos alunos, ou seja, que os levem a refletir e praticar ações conjuntas sobre o assunto estudado.

Com isso, fica latente a questão da indisciplina dos discentes, que atrapalha e vai contra a boa produtividade da aula. Diante desses desafios, Catão sempre se questionou: como mudar tal realidade para que os alunos se interessem pelas aulas de Língua Portuguesa? Basta apenas a tríade – otimismo, compromisso e motivação – ser colocada em prática junto a eles? Acredito que não, visto que, a partir do momento que assisti a aulas em que outros professores estavam utilizando novas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), aplicadas ao contexto educacional, percebi que aquela poderia ser uma alternativa interessante diante de tal cenário. Ao ter contato com a ferramenta, notei que a adoção do WhatsApp promovia a interação entre estudantes e professores. Ademais, possibilitava novos recursos de ensino e aprendizagem, já que, por meio deste aplicativo de comunicação eram permitidos troca de mensagens de texto, imagens, sons e vídeos. Este aplicativo é muito utilizado no contexto social. Contudo, como estratégia educativa ainda são poucos os estudos realizados, principalmente quando se trata de ensino por meio da ferramenta que virou “febre” principalmente entre os alunos mais jovens.

Tanto é que pesquisas mostram que mais de 50% dos jovens nas grandes cidades não conseguem abandonar os celulares e tablets e não se desconectam um minuto sequer da internet. Esses alunos ficam on-line 24 horas por dia, onde acessam redes sociais, ouvem músicas, baixam inúmeros vídeos, jogos e ainda se comunicam e se interagem uns com os outros, seja em qualquer modelo e em qualquer classe socioeconômica da sociedade atual.

Apesar de alguns percalços, tenho tido êxito com a utilização de tal aplicativo dentro da sala de aula. Há pouco mais de um ano, criei um grupo no Whatsapp com meus alunos, por meio do qual compartilho informações, gravações de áudio com o conteúdo a ser estudado e questões que os alunos devem responder. O motivo que me levou a tal iniciativa é que, ao iniciar a aula, perdia um tempo considerável chamando atenção dos discentes por utilizarem o celular na sala. Então percebi que poderia aproveitar aquele interesse dos alunos de uma maneira que contribuísse para o aprendizado. Apesar de existir uma lei que proíbe o uso de celulares na sala de aula, fiquei sabendo por meio do coordenador que é permitido o uso pedagógico. Cadastrei, então, os números deles em um grupo no aplicativo e passei a utilizá-lo como ferramenta de suporte ao trabalho realizado. A partir daí, o grupo passou a fazer parte da dinâmica das aulas. Como funciona? Primeiro, explico o conteúdo e depois passo uma questão para eles responderem pelo WhatsApp. Peço que respondam o mais rápido possível, para ver quem responde primeiro. Neste momento, a sala fica em silêncio total enquanto cada aluno digita sua resposta, atitude que antes raramente acontecia.

Além das questões em sala de aula, também envio gravações de áudio de até três minutos que sintetizam assuntos discutidos na sala de aula. E para incentivar os alunos a estudar em casa, também envio questões para o grupo durante o período da tarde. Tais exercícios, geralmente, são sobre algum assunto discutido na aula daquele dia.

No início, muitos estranharam a iniciativa, pois estavam acostumados a enxergar o WhatsApp apenas como uma ferramenta para conversar com os amigos, e mostraram certo receio em permitir que o clima dos estudos se infiltrasse naquele ambiente virtual. Após algumas aulas, porém, se acostumaram a incluir o grupo em sua rotina de estudos. A direção da instituição de ensino também foi bem aberta à ideia, embora demonstrasse uma incerteza inicial sobre como o aplicativo seria incorporado às aulas.

Há necessidade de mudanças na formação docente, visando uma melhor preparação de profissionais para o trabalho com a ferramenta na sala de aula, a fim de que estes sejam capazes não só de formar indivíduos pensantes e competentes, mas, também, de contribuir para a melhoria do ensino de Língua Portuguesa no Brasil.

A execução da pesquisa, durante o curso de mestrado, forneceu subsídios para um melhor planejamento do uso do aplicativo visto que, tradicionalmente, o uso de celulares é visto como algo preocupante por muitos educadores, que alegam, na maioria das vezes, que o aparelho desvia a atenção dos alunos. A dissertação também trouxe novos horizontes sobre as novas tecnologias disponibilizadas, especialmente os aplicativos de comunicação em tempo real que podem ser considerados ferramenta chave no processo de ensino-aprendizagem, pois possibilitam que as discussões possam continuar fora da sala de aula. A criação das redes sociais permitiu a extensão da prática pedagógica, favorecendo o aprofundamento e a problematização de temáticas que eram subitamente interrompidas e muitas vezes esquecidas.

 

RAIO-X DA PESQUISA

A pesquisa, realizada pelo jornalista e professor de Língua Portuguesa, Christian Catão, por meio do programa de Mestrado da Faculdade de Educação da UFMG (PROMESTRE), tem como principal objetivo analisar o uso do Whatsapp como um procedimento  de ensino da Língua Portuguesa na sala de aula e fora dela, para criar ferramentas que possam auxiliar os professores a trabalhar com este aplicativo na aula. Para isso, o jornalista visitou uma escola da rede pública de Belo Horizonte e acompanhou durante quase dois meses o trabalho de um professor de Língua Portuguesa do ensino médio que utiliza o aplicativo nas aulas. No grupo criado pelo docente, ele envia diariamente dicas relacionadas ao emprego da norma culta, sugestões de temas para discussão nas aulas de redação, além de notícias e reportagens sobre temas atuais. Trata-se de temas relevantes, que despertam a curiosidade e o maior interesse dos alunos pelas aulas, além de entusiasmá-los para que emitam seus pontos de vista. A partir disso, foi produzido um estudo sobre o ensino médio inovador e as novas tecnologias, além de uma vasta reflexão sobre  a formação do professor para uso das tecnologias digitais.

 

Texto: Christian Catão

Foto: Arquivo Pessoal

 

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