“Carlos Bracher, maestro das cores”, por Edmilson Caminha

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Ao saber que Ana Maria e eu passaríamos um fim de semana em Ouro Preto, na volta de Itabira para Belo Horizonte, Pedro Augusto Drummond sugeriu: “Façam uma visita a Carlos Bracher! Ele vai gostar de conhecê-los, e tenho a certeza de que vocês se darão bem”. Agendamos o encontro para o cair da tarde, na bela casa que é residência e ateliê do consagrado pintor. Recebeu-nos afetuosamente, com a simplicidade e a modéstia próprias dos homens verdadeiramente grandes. A intenção de apenas cumprimentá-lo acabou em conversa de mais de duas horas, em que fomos de Van Gogh a Arthur Bispo do Rosário, de Juscelino Kubitschek a Carlos Drummond de Andrade, que certa vez afirmou: “Encontrei-me com Minas Gerais através da pintura de Carlos Bracher. É o maior elogio que, de coração, lhe posso fazer.”

Começo por dizer-lhe do meu nenhum talento para as artes plásticas, que procuro compensar pelo respeito com que admiro quem demonstra tê-lo. Ao que observa o artista:

― Acho que talento não é tudo, há muito de determinação, de esforço, de aprendizado, de aperfeiçoamento. Veja o caso do Inimá de Paula, que certa vez, em Juiz de Fora, viu o pintor Sílvio Aragão a caminho do Núcleo Antônio Parreiras, com tela, cavalete, mala com tubos de tinta; acompanhou-o, perguntou para que servia aquilo, o Sílvio explicou e, vendo o interesse daquele rapaz que não sabia absolutamente nada de pintura, convidou-o para frequentar o grupo, ao qual também cheguei a pertencer. Assim começou a história do Inimá, que veio a se tornar o pintor que todos conhecemos. O Núcleo Antônio Parreiras funcionava no segundo andar do prédio de uma oficina mecânica, em frente à casa onde nasceu o escritor Pedro Nava, cujas memórias iluminam a literatura brasileira.

Digo-lhe das nossas viagens a Giverny, para contemplar as ninfeias de Monet; a Haia, para ver a Moça com brinco de pérola, de Vermeer; a Arles, para conhecer a Santa Casa onde se internou Van Gogh, uma das paixões de Bracher: “Sou absolutamente fascinado por Van Gogh, que se tornou quase uma obsessão para mim. Já pintei mais de cem telas inspiradas na obra dele.”

Ao ouvir que já fui de Londres a Glasgow, na Escócia, apenas para admirar o Cristo de São João da Cruz, de Dalí, conta:

― Pois fiz algo parecido: fui a Japaratuba, Sergipe, conhecer a terra de um gênio chamado Arthur Bispo do Rosário. Dentro de uns 30 anos, o mundo inteiro vai conhecer a obra dele. Será um novo Van Gogh, até maior do que ele, porque a obra do holandês ficou nos limites da pintura, e a do Bispo não: aqueles mantos, aqueles objetos, aquelas instalações são absolutamente modernos, ele estava muito à frente do seu tempo. Você vai hoje a uma bienal e é uma chatice, aquela mediocridade, aquela repetição, aquela mesmice. Bispo do Rosário já fazia aquilo. E dizer que esse homem passou 50 anos internado em um asilo como doido, comendo com as mãos, dividindo o prato com os cachorros. É impressionante! Um dia o mundo inteiro saberá dele, será o novo Van Gogh, até mais do que ele, de certa forma.

Os quadros na parede me levam a confessar o gosto que tenho por suas pinceladas grossas, o relevo da tinta, o brilho das cores, quase a pedir que cometamos o sacrilégio de tocá-las. E pergunto que mais lhe agrada pintar: retratos, interiores, paisagens…

― Nosso amigo Pedro Augusto Drummond me convidou agora para ilustrar um livro do avô dele. Será a primeira vez que farei isso. Não sou ilustrador, sequer desenhista: desenho muito pouco, umas quatro ou cinco linhas quando vou pintar um quadro. Você pode observar que os volumes e as formas, na minha pintura, não são dados pelo desenho, mas pela cor. Gosto de pintar retratos, autorretratos, alguns eu considero bons, mas ilustração nunca fiz, será a primeira vez. Mas não há como negar um pedido do Pedro, meu grande amigo. Então, aceitei o desafio de ilustrar um livro do Drummond.

Não bastasse a recepção carinhosa, o artista nos cumula de presentes: o catálogo da exposição Bracher: pintura & permanência e DVDs com os documentários Carlos Bracher: retrato intenso, de Olívio Tavares de Araújo, e dois realizados pela filha Blima Bracher: Ouro Preto, olhar poético e Âncoras aos céus. Neste, vemos o pintor em Brasília, a dizer da sua admiração por Juscelino, a transfigurar, em telas enormes, os monumentos da cidade, à vista de pessoas diante das quais ergue os braços como se em transe, maestro a reger sinfonias de cores, cantatas de formas.

Despedimo-nos com a certeza de que Bracher é grande não por acaso. Pinta bem porque pensa bem, virtude que dele faria, se o quisesse, um bom escritor, conclusão a que chegamos pela carta que dele recebi, plena de grandeza humana e de sentimento fraterno:

Quando vejo esses envelopes pardos e com o estilo próprio de embalagem, incluindo as letras garrafais na frente e no verso, já sei: são maravilhas do Edmílson. E não dá outra ‒ são mesmo obras-primas literárias envelopadas à vista. Qual a de antes, “JK, triunfo e exílio de um estadista brasileiro em Portugal”, de Jacinto Guerra ‒ e com dedicatória do autor; e a desta, de agora, “Van Gogh, o suicidado da sociedade”, de Antonin Artaud, que só não veio com a dedicatória do autor por absoluta impossibilidade de sua morte. Senão, viria. Você, com essa elevadíssima generosidade (sem dúvida, das maiores qualidades humanas), talvez fosse à França a pedir-lhe, diretamente ao Artaud, tal dedicatória. É demais, Edmílson, numa pessoa só. Algo jamais visto em tais tratativas, tamanha delicadeza e carinho.

Assim, agradeço-lhe em dobro, meu querido, duas vezes tanto afeto desse cearense de alma bendita e dos amores tantos nordestinos, esses, para mim (como já lhe disse), os maiores seres e povos deste país grandioso, Brasil.

Abraços, extensivos à Ana, e toda a gratidão do Bracher.

Ouro Preto, 21. março. 2018

 

Abaixo, Edmilson com Bracher, no ateliê, em Ouro Preto

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