Quando a Voz se transfigura em Cores

Crônicas com Café , , , , , ,

Em vista a Belo Horizonte, o pintor mineiro Carlos Bracher fez retrato do tenor italiano Cristian Lanza, e a ele dedicou o texto:

NAS ASAS ONÍRICAS DA ARTE, por Carlos Bracher

 Vem de Nápoles das mais lindas vozes masculinas: Mário Lanza, o excepcional tenor que arrebatou o mundo e Hollywood ao interpretar “O Grande Caruzo”. Sabe-se, antes de Pavarotti, Caruzzo terá sido, historicamente, o maior dos tenores de todos os tempos. E, com aquele vozerão, Mário Lanza se torna o pré-Pavarotti dos anos 50 a encantar o canto lírico mundial.

E em sua descendência paterna direta vem seu neto, Cristian Lanza, um caso igualmente excepcional e brilhante na operística da velha Terra de Verdi.

Conheci Cristian em Colônia, Alemanha, quando eu (em companhia de Blima) ali fazia uma exposição retrospectiva em 2011, no Castelo Paffendorf, sob curadoria do competente produtor internacional, o querido Max Krieger, também agente de Cristian Lanza.

Era outubro e numa noite o Max convidou-me a assistir ao concerto do Cristian. Para lá fomos os dois num teatro nos arredores de Colônia. Fiquei, posso dizer, absolutamente impactado. Não podia ser diferente, ao defrontar-me com a imensidão deste artista universal e nele vi todo o insigne trajeto das exímias obras-primas do cancioneiro napolitano e italiano.

Vem desde aquela época o desejo do Max de reeditar tal espetáculo no Brasil. Porém, finalmente, só agora ele encontrou, no Consul da Alemanha em Belo Horizonte, Victor Sterzik, o parceiro ideal, junto ao Ângelo Oswaldo. Aquele concerto de Colônia acoplou-se, aqui, outro gênio musical, o brasileiro Dom, dessa voz magistral, volumosa, raríssima e ímpar, o mesmo da dupla Dom e Juan, seu irmão.

Assim, na noite de 22 de novembro, último, o Palácio das Artes se engalanou sob o talento dos dois tenores, enriquecido ainda pela potente, consistente e mágica soprano Silvia Rampazzo, da italiana cidade de Padova, com a regência do vibrante maestro russo Igor Budinsten, de extensa carreira internacional.

A plateia erguia-se impávida e perplexa diante de Nessum Dorma, Celeste Ainda, Che Gelida Manina, Vissi d’Arte, Vesti la Giubba e o célebre Intermezzo, da Cavaleria Rusticana. Era Puccini, Mascagni, Leoncavallo e Verdi, bem como, em contraponto, Garota de Ipanema e Aquarela do Brasil, numa homenagem aos brasileiros, em duetos, solos ou tercetos dos três cantores e a extraordinária Orquestra do Palácio das Artes avultando-se de júbilo nossa alma extasiada, a que tive o imenso prazer de compartilhar ao lado da querida amiga Cláudia Malta.

As vozes ecoavam dos pulmões entrelaçados e reverberavam nossos corações emocionados, de algo inesquecível à própria memória. Era a Itália e o Brasil ali transportados sob claros delírios de seres imantados da mesma glória de viver. E caminhar. De expressar e de nos vermos resgatados diante dos transes abissais da própria arte, do que somos, do que seremos. Desse prodígio a levar-nos às vibrações mais altas da essência anímica. Tanta potência, pensei, por alguns instantes, tudo ruir, paredes e teto abaixo. E nós náufragos, sem mais Palácio, é tudo tufão, violinos, violas, gargantas e luzes, todos nós sucumbidos sob múltiplos cantares, cujo espetáculo poderia estar nos melhores palcos do universo.

Ao término, após os cumprimentos no “foyer” do Palácio das Artes, saímos – no mesmo carro, o Cristian, Silvia, Simone Campos, eu, o motorista Sinval e o Max, que só coube no porta-malas -, para jantar no Restaurante Olegário, próximo ao Diamond Mall, donde voltei de madrugada à velha Ouro Preto.

Dia seguinte, retornei a BH com cavalete, telas e tintas, onde fiz o retrato do Cristian e da Sílvia, ambos no “Olegário” da Prudente de Morais, sob os ávidos olhares do Deivison Pedrosa, Camila Antunes, Mateus, Max e Simone.

Estabelecemos então, todos nós, um belíssimo conluio sob os enigmas interpostos da sensibilidade, quando nos abrimos às vastas asas oníricas da arte, dentro do reino mais tocante possível, o da amizade, essa a grande companheira que nos há de permear até o fim dos tempos, por essa acoplagem infinda qual seja o afeto humano e o amor artístico.

Entre cores e sons, ora abre-se o presente conclave, da dimensão que nos fará unos da própria espécie, pelo eterno que transita por esses códigos abstratos a elevar-nos ao êxtase e às lágrimas, às células inorgânicas e vibratórias da imaterialidade – pela música.

 

Carlos Bracher   (membro da Academia Mineira de Letras)

Ouro Preto, 10 de Dezembro de 2017

Na foto em destaque, Cristian Lanza e Carlos Bracher.

Abaixo, o produtor cultural da Alemanha,Max Krieger, Simone Campos e Carlos Bracher

 

Abaixo, Carlos Bracher, Max Krieger e o cônsul Victor Sterzik,

Abaixo, o Secretário de Estado da Cultura, Ângelo Oswaldo; Cristian Lanza; Carlos Bracher; Cláudia de Lanna Malta; e Simone Campos

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