Crônica: Nello Nuno e o Mosquito Psicodélico

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Tem alguns lugares na casa de meu pai que me remetem diretamente à infância.

Duas enormes pedras no jardim, que juntas formam um degrau: lembro-me como se num filme de eu atravessá-las num salto, as pernas esticadas, como se fossem um obstáculo a ser vencido.

Um cantinho por onde escoava a água da chuva no porão: meu esconderijo infalível nos piques-escondes com Larissa e Sissi.

Bem ali ao lado fica um comodozinho, que papai usava como adega. Tenho a impressão de ter ido algumas vezes lá, brincar também com um amigo imaginário, que me acordava à noite e me mostrava uma prateleira com finas compoteiras de cristal recheadas com balas de coco. Às vezes tinha a impressão de que sonhava e este amigo e sua família me recebiam sempre ao chegar em casa. Ficavam escondidos atrás da porta que dá para a sala de visitas e flutuavam como manchas brancas pelo ar.

A terceira lembrança é um quadro de Nello Nuno, que fica até hoje no corredor entre as salas de visita e de jantar. Nunca soube o que ali se representa, mas pra mim é um mosquito psicodélico, em tons de azuis e verdes, com pequenos pontos amarelos que me intrigavam e intrigam até hoje. Sentia e sinto algo bom ao olhá-lo: misto de incógnita e desafio, e no fundo um abraço enorme de um nome que meus pais sempre pronunciaram com muito amor: Nello Nuno.

Nello Nuno era dessas palavras que eu ouvia desde sempre, com uma sonoridade fraternal na voz de papai. Aqueles jovens artistas, nos idos dos anos 70, eram como uma irmandade buscando poesia e inspiração em Ouro Preto.

A vida era em preto e branco nas fotos, mas colorida nas memórias remotas e até imaginárias, de um bebê e uma criança que cresceu em meio ao cheiro de tinta no ateliê.

Confesso que usava as caixinhas de filmes fotográficos para fazer viveiros de formigas e tatus -bolinhas, que sempre morriam, apesar dos furinhos para ventilação e das folhinhas que eu ali colocava.

Às vezes apareciam visitas ilustres e mamãe tirava do armário garrafas de bebidas com cheiro forte. Foi o caso de quando Vinícius de Moraes veio para ser retratado, no velho canto ao lado da janela no ateliê (aliás, essa janela dá para o telhado de Tia Zelinha e uma vez levei bronca por ali ter ido me esconder no pique-esconde).

Não me lembro de dias e fatos, mas de aromas e amores que se espalhavam pela casa. Papai me conta que no dia do retrato de Vinícius eu entrei correndo no ateliê e ele perguntou: “_Vinícius, você gosta de crianças?”. Ao que o poeta respondeu: “_Teoricamente, Carlinhos”.

Papai e Vinícius também desenvolveram essa união fraternal que emanava entre os artista da época. Tanto que, depois de uma noitada no Pouso do Chico Rei, após secar sozinho uma garrafa de uísque, lá pelas 5 da madrugada, Vinícius convidou papai para viajar.  _”Mas para onde?”. _ “Para o Uruguai, irmão”. Convite ao qual Carlinhos recusou. E lá se foi o poetinha com sua escova de dentes no bolso e um Karmman Ghia caquético atrás de um novo amor com sotaque latino.

Num daqueles Festivais de Inverno foi Bruna Lombardi quem deu as caras no ateliê. Nem me dava conta de quem era, mas nunca me esqueci daquela moça de olhos claríssimos estendendo sua mão pra mim e me dando uma margarida.

Quanto ao Nello, foi destes irmãos da fraternidade artística e do qual tenho saudades imaginárias. Lembro-me de, ainda bebê, sentir pela primeira vez um clima de mistério na casa. Meus pais tristes. Diria que minha primeira sensação de luto, algo único e tão forte que afetou as emoções daquele bebê que eu fui, ainda engatinhando pela casa.

Recordo-me do nome Hezir e das idas à casa de Annamélia, a esposa de Nello. Foi despois de uma dessas noitadas, a que meus pais estavam presentes, que Nello teria comido um patê contaminado com toxina botulínica, que paralisou sua digestão.

E, aquele pequeno pote derrubou o leão corpulento e amoroso, cheio de talento e ideias, o precursor do neo-expressionismo mineiro.

Tenho a imagem de Nello como um gigante, como aparece na foto no Calabouço, ao lado de Vinícius de Moraes, rodeado de amigos e abraçado ao franzino pescoço de Annamélia.

Ou ainda, posso vê-lo e conhecê-lo, naqueles grandes olhos negros pousados na face redonda, flagrados atrás da vidraça pelas lentes do genial Dimas Guedes.

De alguma forma saudosa, amo o Nello e sua obra, seu corpanzil imenso a derrubar garrafas de cerveja goela adentro, sua memória e seu elo afetivo, ainda vivo e pulsante naquela fraternidade de artistas que me edificaram a alma.

Texto: Blima Bracher 3/3/2018

Foto em destaque: Dimas Guedes

Obra em destaque: arquivo pessoal de Blima Bracher

4 thoughts on “Crônica: Nello Nuno e o Mosquito Psicodélico

  1. Escrever sobre as boas pessoas que se foram, é ttrazê-las de volta a vida e como isso faz bem, e brincar de pique esconde sem o consentimento do anjo da guarda? Isso mesmo, cada lugar sem noção que a gente escolhia que hoje nem passaria perto.
    Bom Domingo a todos, o Domingo trás todas as lembranças possíveis.

  2. Lindo texto, Blima.
    Desceu como aquele licor de jabuticabas dulcíssimo que, ao se despedir, aperta um pouco a garganta querendo provocar lágrima.
    Meu filho deitou-se ao meu lado enquanto eu lia a crônica e, meio sem perceber, evitei o embargo na voz que poderia denunciar minha emoção.
    Lindo texto. Obrigado.
    Delicados fragmentos de memória, permeados de emoção, como minhas memórias de meu pai. Lembro pouquíssimo dele, abalado que fui pelo susto. Mas, do pouco que lembro, sempre tem a coloração que você o deu no seu texto: afeto, saudade e o corpo de um homem enorme e acolhedor, que eu gostava muito de abraçar.
    Um grande beijo a seus pais. Eles, em minha memória, também coloriram as imagens que tenho do meu pai de carinho e afeto. Parece mesmo que quase todos que conviveram com ele guardam em si o homem feliz e carinhos que ele parece ter sido.
    Espero que possam ver a exposição e recuperar, nos quadros, um pouco daqueles tempos. Está linda a mostra!
    Grande e afetuoso beijos pra voce. E Obrigado, mais uma vez.
    Nello

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