Crônica: “E Adriana, finalmente, virou Marília”

Crônicas com Café

A morte de Adriana Silva de Andrade e Souza, nossa Marília de Dirceu do século XXI, cercada de mistério, reforçou ainda mais seu mito.

Personagens como ela, plurais e antagônicos, costumam virar entes encantados, despertando aquele “disse me disse”, de onde nascem as lendas urbanas.

Dizem que foi encontrada morta em casa, onde sozinha vivia, depois de quatro dias, segundo perícia. Mas o burburinho popular jura que a viu vagando na Ladeira das Dores, onde morava, em Ouro Preto, dois dias depois da suposta morte. Outros juram de pés juntos, que suas partes já se decompunham e se quebravam após uma passagem solitária em plena Semana Santa, deixando atônitos até os bombeiros.

Infarto? Remédios tomados à revelia? Teria ela pedido ajuda? Fora Adriana morta?

Diziam a boca pequena que acumulava pequena fortuna de berço. Mas que perdera todos os familiares em um acidente. Sozinha no mundo teria adotado um filho. E ainda teria despencado de um elevador no Rio, sua cidade natal.

São tantas as histórias que pululavam em vida, agora tecendo em torno de seu cadáver encantado uma mortalha de fofocas e murmúrios.

“Atrás de portas fechadas, à luz de velas acesas”, como no Romanceiro de Cecília Meireles falavam e falam dela. Aliás, espiritualista que era, Adriana dizia, em entrevistas: “tenho certeza de ter participado de algumas das reuniões dos inconfidentes”. Por isso, coube a ela retratar a história através do vestuário, palestras e cafés literários em sua casa-museu na Rua Getúlio Vargas na Vila Rica.

Perambulava por Ouro Preto com suas vestes de Marília de Dirceu. Dizem que, frequentemente, era vista no túmulo do amado Tomás Antônio Gonzaga no Panteão dos Inconfidentes do Museu da Inconfidência.

Aliás, tenho cá comigo que morreu assim, num sonho lindo com seu amor platônico. Este encontro póstumo teria durado quatro dias, até que a alma de Adriana, metamorfoseada em Marília tenha deixado o corpanzil e seguido seu amado, flutuando rumo ao jardim etéreo dos eternos apaixonados.

Nos encontrávamos em caminhadas com frequência. A última vez, uma semana antes de sua morte, descendo do ônibus de BH, onde, mais uma vez, me cobrou a tão esperada visita para um café.

Escrevo esta crônica como uma visita póstuma, a essa gigante da cultura, que murmurava em tons delicados, sempre que me encontrava: “Em Ouro Preto poucos dão importância à história vivida. Cabe a mim resgatar estes personagens, a quem faço tudo por gratidão. O que me impulsiona a continuar neste trabalho são as homenagens que recebo quando faço palestras e também o aplauso dos turistas que vêm a Ouro Preto.”

Tudo nela era verdadeiro, mas ao mesmo tempo antagônico. O corpanzil imenso contrastava com a suave voz e os gestos delicados, típicos de moça finamente educada, filha de um diplomata e uma bailarina.

Escolheu a carreira da mãe, e fundou em Ouro Preto, há mais de 40 anos, a escola de Balé Clássico “La Prima Ballerina”, da qual fui aluna.

Lembro-me de bem pequena, adentrar ao salão, sempre recebida por seu coque impecável, postura ereta e uma varinha, que usava como batuta para educar suas pupilas.

Perfeccionista, era exigente, e uma excelente professora. Apesar do ‘phisique du role” não ajudar, sua obstinação e perseverança a tornaram grande profissional, nos ensinando as lições de ballet, em francês impecável e a disciplina necessária às bailarinas.

Eu, insubordinada como era, sempre “pagava” no final da aula uma maratona de cem “chamgemants”, ao som do “E um , e dois, e três…”. Quando chegava aos 80 e as pernas já bambeavam, Adriana, passava a varinha a um palmo do chão, entre um salto e outro, para garantir que a tarefa fosse cumprida à perfeição. Mas boa bailarina que eu era, sempre me escalava para todos os números da apresentação do fim de ano. Meus pais, nem sempre tinham dinheiro para comprar as caras produções encomendadas em BH, no Ballet Branca de Neve.

Tenho pra mim que Adriana queria flanar como bailarina e criou o personagem Marília de modo  a flutuar entre saias e babados barrocos. Marília era também sua bailarina interna. Uma fórmula que inventou para seu alter-ego citado na lira XXXVII do amado Dirceu:

“(…) O seu semblante é redondo,
Sobrancelhas arqueadas,
Negros e finos cabelos,
Carnes de neve formadas.

A boca risonha, e breve,
Suas faces cor-de-rosa,
Numa palavra, a que vires
Entre todas mais formosa. (…)”

E assim, foi formosa como Marília, com suas carnes de neves, já liberta dos entraves, bailando como dama, nos salões inebriantes.

Quem sabe não recebeu Adriana, o chamado de “Meu sonoro passarinho”?

 

Blima Bracher, como uma visita póstuma devida à querida professora Adriana

 

(04/04/2018)

Foto: Reprodução

 

7 thoughts on “Crônica: “E Adriana, finalmente, virou Marília”

  1. Prezada Blima,

    Sua crônica sobre a professora Adriana é bela e comovente, cheia de grandeza humana e de sentimento fraterno. Quer dizer que, além de documentarista ilustre, Você é talentosa escritora? Parabéns! Continue a brilhar no cinema e na literatura. Os brasileiros precisamos de artistas assim!

    Beijo com afeto do amigo, espectador e leitor,

    Edmílson Caminha

  2. Prezada Blima.
    Minha filha estudou na UFOP, conheci Ouro Preto e me apaixonei pela cidade, pelo povo, pelas histórias, por Agripa Vasconcelos (escritor que descobri na cafeteria e livraria da R. Claudio Manoel da Costa). Encantei-me e lavei a alma no “Triunfo Eucarístico” e, nesse dia, conheci a Bailarina… um encanto. Hoje (11/07/18) recebendo uma visita em minha casa aqui em Franco da Rocha e falando de Ouro Preto e da Bailarina, fui a intenet para mostra-la, foi quando soube do falecimento e, tentando, saber como… encontrei o seu blog. Parabéns pela homenagem, perdi no tempo a bailarina e encontrei uma cronista. Visitarei sempre o blog e tuas crônicas, voltarei mais amiude a Ouro Preto, novos encantos e novas supresas a cada visita. Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *