Crônica: “A caixinha cor de rosa dos antepassados suíços”

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Um primo envia pro meu pai uma bela caixa cor de rosa pelos correios.

Carlinhos eufórico comemora: depois da morte da matriarca daquele núcleo Bracher, mandam todas as fotos e cartas da família. Pra quem? Pra documentarista aqui: lógico.

Do que mamãe daria cabo na hora, papai embala como tesouro a ser guardado a sete chaves.

E o “chefe”, a quem não se consegue recusar nada, absolutamente nada, e perfeccionista ao extremo, resolve escanear tudo. Eu disse Tuuuudo.

Lá pelas 11 da noite:

“ _ Só mais essa, filhinha.”

“_ Só mais essa.”

“_ Mas pai, aquela não era a última? (O truque dele é ir tirando os coelhos da cartola bem devagarzinho e nunca mostrar o volume monstruoso de trabalho que teremos pela frente, não é, Igor Brandão?)”

PQP

Marido ligando “P” da vida…

E eu lá, digitalizando aquelas fotos. Os nomes? Todos decassílabos, “por supuesto” e compostos. Já reparou como os antigos tinham mania de nomes compridos?

Há, mas claro: todos tinham apelidos.

Ao que Bracher me obrigava a legendar tudo com nome, sobrenome apelido, data, dia, hora, local e alguma observação do tipo: “Fulana não aparece nesta foto porque estava com tuberculose”.

“_ Repara filha, todos tristes longe da irmãzinha…”

“_ Mas pai, não foi essa que se casou com o tal rico, dono do hospital? Pensa que pelo menos a doença serviu pra desencalhar.”

E dá-lhe Eugênia, que chamavam de Geny; Iduna bebê no colo de Waldomiro; Frederico pai e Frederico Jr., que chamavam de Lico; Reüssner com trema; Tia Elá; Luxito; Lotus; Godofredo, Emma, Mathilda (eita povo pra ter filho). Agradei do nome Linê (mas perguntei como era umas dez vezes, pois não conseguia guardar). E eu tirando onda, como se “Blima” fosse o nome mais comum do mundo. E depois vieram Lídia, Lidinha. E umas tais amigas Siloca, Olinda e Silica…. Afffff.

Preciso respirar.

Foi numa dessas fotos que conheci o coitado do tio Oscar, o mais velho dos irmãos de vovô. O pobre era responsável por cuidar da trupe na ausência de meus bisavós Frederico e Amanda.

Vovô Brachão contava que eram os pais sair e o bicho pegava: “Levantávamos as camas e fazíamos os lençóis de cortina, como num teatro”. A bagunça sobrava pro coitado do Oscar. Quando os pais retornavam, tudo nos conformes, ao que o primogênito era arguído em sotaque carregado:

“_ ÓÓÓscar, os crenças se comportaram?”

“_Sim papai, todos dormiram feito anjos…”
Foi quando me atentei pra alguns detalhes: as crianças com sorrisinhos marotos ou semblantes apavorados, provavelmente por causa do flash e da recomendação para permanecerem imóveis e sem piscar.

As moças bonitas e sonhadoras na juventude, posando com os olhos revirados (acho que era moda na época). Todas sonhando com o príncipe encantado. Ao que, depois que o “príncipe” aparecia, duas gestações depois, já estavam rechonchudas, posando como matronas e broches sufocando as golas no pescoço. Naquela época dizia-se: “Dai-me gordura, dai-me formosura”.

Ui… Esse é o meu DNA? Com um agravante: sempre digo que puxei a largura dos alemães e a altura dos portugueses (lado materno).

E dá-lhe papada e bochechas.

Socorro, Letícia Soares Bressan, haja enzimas para diluir essa papada genética, que era charme em mil novecentos e vovó gostosa.

Jesus, a barriguinha saliente, atualmente, é praticamente um crime. Que me perdoem as belas plus size que vem reabilitando as carnes fartas.

PQP

Pru, pru, pru, como diria tio Décio.

E lá pelas tantas vem o pior: tchan, tchan, tchan, tchan: EU apareço numa das fotos.

Claro que Bracher, muito ardilosamente guardava tal catástrofe pro final. Ele sabe que AMO rasgar esses registros, principalmente aqueles em que eu apareço atrás de óculos gigantes. Certa vez tentei esconder os meus dentro de uma galocha, mas fiquei ceguinha, tadinha.

Mas nesta fotos eu já era moça feita e já havia substituído tudo devidamente pelas lentes cinzas, que uso para reforçar a genética suíça. KKKKK. (Ainda bem que meus olhos são puxadinhos, como os da vovó Hermengarda, descendente de índios.)

E, voltando à foto em que eu apareço, papai afirma:

“_ Filha, tenho certeza de que foi no meu aniversário, fomos visitar a Madre Bertha, na Casa de Nazaré.”

Essa, coitada, passou 27 anos, como freira, na China comunista, operando até vistas, sem diploma. Um dia, chamada pelo presidente, achando que ia ser fuzilada, foi aplaudida de pé e ganhou diploma de médica prática.

Mas, voltando à foto, papai diz:

“_Sei que era meu aniversário, mas não lembro o ano.”

“_ Calma pai, eu descubro pela cor em que tinha tingido o cabelo na época… O pior é que este loiro platinado eu repeti muitas vezes.

Aproximei a foto.

“_ Já sei pai, estou de aliança, basta saber de quem estava noiva na época.”

“_ Outro bom indício, minha filha”

E tome vovô com Amarilis no colo.Bodas de ouro de Frederico e Amanda (foto em destaque), com a presença dos primos de Sampa. E Geny formando em 1931.

Putz, afff

E veio o “gran finalle”:

“_ Filha, você se lembra dos nomes das freiras que aparecem nesta foto?”
“_ Ah pai: põe Carlinhos, Fani, Larissa e as defuntas.”

Fui….

(Com todo o amor e respeito aos meus queridos antepassados e parentes Bracher. Peço que levem tudo como uma demonstração de amor).

10/04/2018, Ouro Preto, por Blima Bracher

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