As lições de meu bom pai

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Papai nos ensina grandes lições em pequenos gestos.
Sempre sorrindo, é desses abençoados, que gargalham sozinhos no banho. Acho isso o máximo, pois o riso não me é mais fácil, como naqueles tempos de adolescente em que ríamos de tudo e de todos, sem quê nem porquê. Apenas o riso atropelava as falas e pensamentos, como fortes rajadas de vento que levantam cortinas, a se ondular pelo ar.
Papai é pra mim uma eterna criança, um jovem eterno, pois nele as carapaças de zelo e recalque não fizeram escudo.
Sai rindo e cumprimentando as pessoas, sem nenhum bloqueio de ego, nem a menor noção do que seria socialmente aceito e essas bobagens que adultos inventam pra se isolarem em seus castelos mesquinhos.
Chego a ficar acanhada, às vezes, mas com sua doçura ele quebra barreiras e as pessoas entendem a grandeza de sua simplicidade.
Pegamos um ônibus de Piau, um lugarejo de interior, rumo a Juiz de Fora. Em uma hora de viagem, papai se juntou a outros dois senhores, bem matutos, chapéus de palha e pés da lida.
E os três engataram um papo profundo. Juntaram-se em uma roda que mais parecia um jogo de bolinhas de gude. E, de lá, discutiram a situação mundial, numa análise tão profunda, culta e lógica que nem o maior analista seria capaz de pensar. Tudo, com a naturalidade de três meninos disputando o gude na terra.
Pensei: como essa geração é culta. Duvido que qualquer vestibulando, do melhor cursinho discorreria sobre aqueles assuntos com tamanha clareza e entendimento.
Descemos num ponto, bem próximo à rodoviária, onde iríamos pegar outro ônibus. Fizemos sinal e o taxi parou. Ele sorrindo, se desculpou por ser a corrida pequena, mas disse:“- Será pelo prazer de sua companhia”. E o taxista sorriu em sinal de cumplicidade. Falaram sobre o time Tupi, o Galo de Juiz de Fora, que ele adora. Me disse que quando jovem assistia muitas partidas comendo biju. E até hoje adora ver uma pelada aos domingos, dessas de várzea. Aliás, esporte é com ele mesmo. Um aficionado, capaz de virar noites assistindo até pôquer e conhecedor de regras de todas, absolutamente todas, as modalidades esportivas.
Chegando na rodoviária de Juiz de Fora, sua terra natal e onde os Bracher são muito queridos, muitos vinham cumprimenta-lo.
E ele, como um político em véspera de eleição distribuindo abraços, sem nada esperar em troca, que não a energia boa daqueles que te admiram.
Na banca da rodoviária deu de presente para a moça que atende lá um discurso que ele fez em sua posse na academia Mineira de Letras. A moça o abraçou e chorou copiosamente, comovida com o gesto de amizade e respeito para com alguém que tem nas palavras seu ganha pão.
Eu chorei, e ele, me olhando nos olhos me disse: “ – Blima, na vida a gente tem que ser bom com as pessoas”.
A lição do dia.
E não parou por aí: até uma pombinha veio lhe encostar no pé. Ele saiu, sorrateiro e voltou com um pacotinho de pão de queijo. Saiu, caladinho e alheio a tudo, distribuindo os pedacinhos aos pombos, que se abrigavam entre as cadeiras do terminal.
Esse é papai.

Em homenagem a Carlos Bracher, janeiro de 2017

Texto e foto: Blima Bracher

5 thoughts on “As lições de meu bom pai

  1. Prezada Blima:
    Parabéns por sua crônica As Lições de Meu Bom Pai que acabo de ler.
    Confesso a você que, raramente leio crônicas na Internet e, sinceramente, esta é a primeira vez que envio uma resposta, on line, a uma crônica.
    Mas por se tratar de homenagem a um Pai, chamou-me a atenção.
    Não tenho mais meu Pai e nem minha Mãe e fico emocionado quando vejo qualquer homenagem que é feita a um Pai ou a uma Mãe.
    Exceto os casos de pessoas que não devem ser normais, o Pai e a Mãe são as pessoas, nesta vida, que mais nos amam, verdadeiramente, e tudo fazem por nós.
    Provavelmente a gente passa a ter mais consciência desse amor quando somos Pai ou Mãe e aí é que a gente percebe com mais profundidade como um Pai e uma Mãe gosta gosta de um filho.
    Depois que a gente os perde, quanto mais o tempo passa mais saudade a gente tem deles, meu Pai e minha Mãe não saem da minha cabeça.
    Parabéns por sua homenagem a seu Pai.
    Um Grande Abraço.

    Aristides S. Antunes, Advogado em Conselheiro Lafaiete-MG

  2. Prezada Blima:

    Parabéns por sua crônica As Lições de meu bom pai que acabo de ler.
    Confesso a você que, raramente leio crônicas na internet e, sinceramente, esta é a primeira vez que envio uma resposta, on line, a uma crônica.
    Mas, por se tratar de homenagem a um pai, chamou-me a atenção.
    Não tenho mais meu Pai e nem minha Mãe e fico emocionado quando vejo qualquer homenagem que é feita a um Pai ou a uma Mãe.
    Exceto os casos de pessoas que não devem ser normais, o Pai e a Mãe são as pessoas, nesta vida, que mais nos amam, verdadeiramente, e tudo fazem por nós.
    Provavelmente a gente passa a ter mais consciência desse amor quando somos Pai ou Mãe e aí é que a gente percebe com mais profundidade como um Pai e uma Mãe gosta de um filho.
    Depois que os perdemos, quanto mais o tempo passa, mais saudade a gente tem deles, meu Pai e minha Mãe não saem da minha cabeça.
    Um grande abraço.

    Aristides S. Antunes, Advogado em Conselheiro Lafaiete-MG.

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