Artista D’Um Brasil agreste

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Belo Horizonte vai sediar uma exposição inédita de obras de 16 artistas populares de um “Brasil profundo”- do agreste e do sertão de Pernambuco, dos sertões de Alagoas e  Sergipe e do Vale do Jequitinhonha, em Minas. Figuras humanas, animais e outras formas, a maioria esculpida em madeira e cerâmica, revelam a força e a rudeza do sertanejo envoltas numa sensibilidade de tocar a alma, dando vida à natureza morta ao criar peças com um inacreditável senso estético. “É a rudeza amparada a uma delicadeza sem fim” na concepção de Pedro Olivotto, curador da mostra, que pesquisou e coletou as obras que compõem a exposição. Nas palavras da  museóloga alagoana Cármen Lúcia Dantas, “é um conjunto de escultores que dispensa a beleza fácil e agrega às suas obras a força da singularidade estética e o viés cultural. As esculturas se mobilizam entre o mitológico e o real, entre o sentir e o ver, entre a tradição e a insurgência, materializadas em totens, figuras ancestrais, tipos regionais, mobília/objeto”.

A mostra, que chega pela primeira vez em Minas – trazendo obras de João da Canoa, Clemilton, Mestre Petrônio, Valmir, Zezinho de Arapiraca, Salvinho, Vavan, Mestre Vieira, Mestre Aberaldo, Antonio José de Dedé, Zé Crente, Jasson, Sil, Lira Marques, Véio e Zé Bezerra – acontece de 23 de junho a 11 de agosto na Galeria Manoel Macedo, no Carlos Prates.

 

Bravos artistas

João da Canoa

Natural de Capela, Região dos Vales do Paraíba e do Mundaú, João Carlos da Silva, o João da Canoa, desde pequeno já se destacava na escola pela criativiade de seus desenhos. O barro era sua matéria prima, como é até hoje, quando ainda usava como brincadeira para modelar boizinhos. Ele conta que aprendeu e se desenvolveu com a experiência e a observação. E não se cansa de dizer que sua principal referência foi o mestre Vitalino.

 

Clemilton

Clemilton Silva já desponta como o mais novo talento na arte de trabalhar a madeira, esculpindo os fabulosos bonecos do sertão alagoano, numa impressionante profusão de cores e sofisticado acabamento de requinte único. Mas o irriquieto escultor já invade novos terrenos de sua fértil imaginação, provavelmente influência do gracioso vilarejo onde mora – Mata da Onça, região próxima à Ilha do Ferro.

 

Mestre Petrônio

“Eu gosto de fazer é isso aí, buscar na própria forma dos troncos o meu imaginário”. Assim José Petrônio Farias e Anjos, O Mestre Petrônio, natural de Riacho Grande, em Alagoas,  se identifica, apontando para seus “monstros”: criaturas gigantes, de bocas enormes, vermelhas de sangue e dentes ameaçadores, olhos arregalados e corpos retorcidos. Suas obras ficam enfileiradas na entrada do sítio Estrelo, na estrada para a Ilha do Ferro. As figuras estão presentes em todas as esculturas de Petrônio, inclusive nos mais variados bancos, cadeiras e mesas que ganham vida e personalidade a partir de galhos secos retorcidos e pedaços de troncos de árvores, encontrados no leito do Rio São Francisco e seus afluentes.

 

Valmir

Herdeiro e familiar do Mestre Fernando, o lendário precursor das artes da Ilha do Ferro, Valmir forjou seu estilo e características atrás da construção de cadeiras de múltiplas formas e dimensões, bancos e esculturas que justificam aquele legado transferido. Trabalhando no atelier majestosamente encrustado em frente ao Rio São Francisco, Valmir se inspira nos formatos já conhecidos por todo o Brasil.

 

Zezinho de Arapiraca

Criatividade e cor talvez sejam as duas palavras que melhor resumem a obra de José Cícero da Silva, o Mestre Zezinho. Em 2000 descobriu sua vocação para arte e nunca mais parou. Mestre Zezinho é hoje um dos mais respeitados artistas populares de Brasil. Uma das características marcantes de Zezinho é o caráter lúdico de sua obra. O trabalho do artista está espalhado pelo Brasil e outros países em galerias e coleções particulares.

 

Salvinho

Pertence a uma família inteira da Ilha do Ferro que vive da arte, para a arte e com arte. Gerações que se encontram no seu fino traço e acabamento refinado das cores, que lhe conferem prestígio e admiração entre seus companheiros e artistas da Ilha do Ferro e das galerias de todo o Brasil.

 

Vavan

Estreante como artista na Ilha do Ferro, já chega com uma coleção de peças de encher os olhos. “A arte na minha vida esteve sempre presente, desde cedo, quando reinava com um serrote, fazendo peças, principalmente canoas, que até hoje são as que mais gosto. Minha inspiração vem de menino. Meu desejo é sempre transformar e buscar algo novo”.

 

Mestre Vieira

Vieira da Ilha do Ferro, ou Mestre Vieira, é um dos escultores mais admirados e destacados nos dias de hoje. Com seu pai – construtor de barcos e também escultor -aprendeu a trabalhar a madeira com esmero e sempre pintada em cores vivas. São barcos, homens, mulheres, pássaros e outros animais e seres imaginários, além de peças utilitárias, como móveis, cadeiras de balanço e namoradeiras. Sua inspiração vem da Ilha do Ferro, comunicade que fica às margens do Rio São Francisco.

 

Mestre Aberaldo

Mestre Aberaldo é o mais antigo precursor do movimento de arte na Ilha do ferro. Foi com a arte figurativa que ele veio a se tornar um dos escultores mais aclamados do Brasil. Seu tema principal é a figura humana com corpos preponderantemente deformados e de uma forte expressividade.Isso se tornou uma marca registrada de sua reconhecida obra, nacional e internacionalmente. O lado mais fantástico da comunidade da Ilha do Ferro pode ser encontrado na oficina de Mestre Aberaldo, não somente pelas figuras humanas coloridas e amontoadas pelos cantos. O pequeno ateliê surpreende pela forte representação do misticismo do mestre, que guarda uma coleção de casulos de insetos pendurados por todo o teto, peles de animais e um crânio de bode para espantar maus espíritos – costume comum nas cidades de interior.

 

Antônio José de Dedé

Filho do reverenciado Antônio de Dedé, uma das maiores referências da arte popular do Brasil, esse artista faz jus ao talento herdado do pai, desde muito cedo. Ao assumir a direção do atelier em Arapiraca, onde existe um memorial público em homenagem ao pai, Antônio é recebido como continuação de uma trilha rara e de um sofisticado traço familiar.

 

Jasson

Dono de uma irresistível capacidade de criação, é visto como homem que vive fora de si na cidade onde habita, Belo Monte. “É que eu vivo da natureza, ela se transforma todo dia, e eu sou assim: a cada dia sou um”. Suas obras espantam o corredor das artes e o aproximam das galerias e colecionadores do mundo todo.

 

Zé Crente

José de Tertulina, conhecido como Zé Crente, é um gênio das esculturas em troncos, galhos e raízes. Um apaixonado por arte. Em suas esculturas em madeira cabem as mais variadas formas de criação, como bancos, cadeiras, pombos, pássaros com cabeça de canguru, cobras, boi, girafa, vasos e tudo mais que apareça no momento da criação.  Em madeira natural ou pintada em cores vivas, as obras de Zé Crente tornaram-se uma das referências da Ilha dos Ferro.

 

Sil

Maria Luciene da Silva Siqueira, trabalhadora no corte de  cana até os 20 anos de idade, nasceu em Cajueiro mas foi criada em Capela, na Zona da Mata alagoana. Inquieta e sempre à procura de uma profissão, deparou-se com uma oficina com o barro, onde pontificava o Meste João das Alagoas. Foi sua redenção. Identificou-se com a arte e em pouco tempo nascia Sil, como era chamada pelos pais, uma das mais importantes revelações da arte popular do Brasil nas últimas décadas. Suas obras revelam fortes expressões e riqueza de detalhes: são homens e mulheres do povo, brincadeiras infantis, vivências da vida na roça e, sempre, a presença da jaqueira, árvore abundante na Zona da Mata alagoana e marca registrada em suas criações.

 

Véio

Nascido e criado no sertão sergipano, o escultor Cícero Alves dos Santos – conhecido como Véio – trabalha com diferentes madeiras criando peças dos mais variados formatos, dimensões e cores, desde um grande tronco até um minúsculo pedaço de madeira, quase sempre retratando gente e animais que dialogam com movimentos imaginários, dando vida à matéria prima – a madeira morta. Véio criou, ao lado de sua casa, o Sítio Soarte, o Museu do Sertão, formado por esculturas em madeira bruta que representam manifestações socioculturais pelo olhar do artista, como noivas, grávidas, seres imaginários,chapéus de couro, utensílios domésticos, roupas e acessórios que fazem parte da vida do sertanejo. Há três anos Véio exibiu parte de suas esculturas em Veneza, na Itália, em uma  paralela à famosa Bienal da cidade. Ele foi um dos dez artistas escolhidos pelo Prêmio Itaú Cultural 30 Anos, promovido em 2017.

 

Zé Bezerra

Natural de Buíque, no Vale do Catimbau, na divisa entre o agreste e o sertão pernambucano, o escultor Zé Bezerra passou por inúmeras dificuldades na vida pobre e simples que sempre levou. Mas nunca se deixou abater. Ele conta que em um determinado momento da vida teve um sonho em que era chamado a realizar os trabalhos que faz hoje em dia. Deveria tornar-se artista. A partir daí ele passou a ter um olhar mais acurado nas madeiras que encontra, procurando sempre ver uma figura que já se insinua no tronco para trazê-la à tona com a intervenção de alguns instrumentos, nomalmente facão, grosa, formão e serrote. Suas obras fazem parte do universo sertanejo, como os mais variados bichos, carros de boi e, principalmente, figuras humanas. Tudo em madeira, troncos e raízes de onde aflora, como se lá já estivesse

desde sempre, a obra de arte em seu mais puro estado.

 

Lira Marques

A obra de Maria Lira Marques Borges, conhecida como Lira Marques, chega representando Minas Gerais e a força estética do Vale do Jequitinhonha. Mestra do barro, do fogo e das cores tiradas da terra, os trabalhos de Lira, de Araçuaí, possuem uma fina sintonia com o que há de mais expressivo da cultura do Jequitinhonha. Tendo o negro e o índio como inspiração, Lira modela máscaras em barro e faz pinturas de terra – obras em argila sobre o papel. Interessada pelas etnias do brasileiro, Lira também tornou-se pesquisadora, principalmene na região do Vale do Jequitinhonha.

 

 

 

ARTISTAS D’UM BRASIL

Abertura: 23 de junho – sábado

Horário: de 11h às 17h

Local: Galeria Manoel Macedo

Rua Lima Duarte, 158 – Carlos Prates

Telefone: 3411.1012

 

Palavra Comunicação

Assessoria de Imprensa

(31) 99952.7239

palavracomunica@gmail.com

 

A arte popular revela o cerne da identidade nacional

 

Carmen Dantas

Museóloga

 

Em andanças pela paisagem sertaneja de Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco, Pedro Olivotto se deparou com uma riqueza inusitada de cenários que o entusiasmou a ponto de estender seu projeto inicial de um filme/documentário a uma exposição, que levasse a BH o melhor da expressão artística de um itinerário fascinante pelo Brasil profundo. Olivotto se encantou com “a rudeza amparada a uma delicadeza sem fim”, que encontrou no trabalho de cada um destes escultores e quis dividir com seus conterrâneos a atitude contemporânea da quebra de resistência ao estranho.

Entre estradas de barro e vegetação inóspita foi encontrando polos artísticos já consagrados como o do Vale do Jequitinhonha, em Minas, ou o da Ilha do Ferro, em Alagoas, mas grupos familiares ou artistas isolados foram sendo encontrados ao longo do percurso como dádivas casuais a enriquecer o acervo coletado.

O resultado é esta exposição antiprotocolar, com destaques individuais que no conjunto surpreende pelo nexo no trato com a matéria-prima, na identidade com o meio e na forma de ver o mundo. Os artistas participantes esbanjam criatividade, livres das amarras acadêmicas, e revelam o próprio cerne da identidade nacional, qualidade inerente às artes espontâneas.

É um conjunto de escultores que dispensa a beleza fácil e agrega às suas obras a força da singularidade estética e o viés cultural. As esculturas se mobilizam entre o mitológico e o real, entre o sentir e o ver, entre a tradição e a insurgência, materializadas em totens, figuras ancestrais, tipos regionais, mobília/objeto elaboradas por 16 artistas: Véio, Zé Bezerra, Petronio, Aberaldo, Zé Crente, Clemilton, João da Canoa, Sil, Salvinho, Vieira, Jasson, Lira Marques, Zezinho de Arapiraca, Antonio José de Dedé, Vavan e Valmir.

O repertório de referências destes expositores está no entorno de cada um deles, no cotidiano, no meio ambiente, no limite do universo diário. Daí a importância de seus voos quando alcançam o alargamento da imaginação, extrapolando o saber fazer, simplesmente. O resultado são obras de arte originais e de beleza vigorosa.

 

 

 

 

 

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